meu dia de trabalho
é uma caixa vazia
que todo dia abro

todo dia acordo
todo dia ciclo
café almoço riso

todo dia ralo

o que resulta
a soma desses dias
é: todo dia algo

(ontem estive num ato
e mesmo no seu átimo desacato
correram-me mais horas
que as do dia desses dias
de todo dia algo)

e também todo dia amo
mas aqui é o contrário
porque todo dia amo
todo dia encontro
uma caixa em que me encontro
uma caixa de onde saio
um laço que me aperta
um laço que desfaço

todo dia amo
e só isso todo dia
é o que resulta-me algo

(https://www.facebook.com/forsignface)

Cerimônia

Repita: “eu prometo usar uma fina camada de isopor sobre meu crânio”.
Repita: “eu prometo não te culpar quando a tonelada e meia de ferro que dirijo te esmagar contra o asfalto”

E assim viveremos felizes para sempre
até que a morte
nos reúna

Na sexta-feira, 6 de dezembro de 2012, Denis Forigo, que sempre fora uma barata, acordou estranhamente metamorfoseado em um humano. Abriu os olhos, estranhando ter olhos tão grandes. Respirou, quase afogando-se pela quantidade enorme de ar que pelas narinas entrava e mexeu a boca, agora curiosamente enorme – mas ainda com resquícios salivares de sua vida de inseto. Pensou que poderia comer restos maiores que os próprios sanduíches. E um sentimento estranho se abateu sobre ele. Deposto de sua grossa couraça de barata, sentia-se frágil, ainda que sua estatura agora fosse centena de vezes maior que a de uma barata. De repente, temia as “guerras nucleares”, palavra que ouvira logo pela manhã e não sabia ainda do que se tratava. E não sabia inclusive o que era “temer”, pois sendo barata sempre fora exclusivamente temido, diga-se de passagem, pelo nojo que proporcionava.
No café da manhã toda a família estranhou. Não havia mais palavras em comum. Os restos da mesa não davam nem para o começo. No trabalho, Denis se perguntava como iria cumprimentar seus colegas e apertar aqueles botões que tinham as medidas exatas das suas antigas patas de barata. Seus amigos, já moldados aos seus hábitos de esgoto, agora estranhavam que ele fosse humano. Tudo era tão estranho que ele desejou ser barata novamente. Usou remédios e criou dietas, fez declarações de imposto de renda e amou paixões totalmente descabidas. Nada arrefecia a metamorfose. Havia mudado, irremediavelmente.
Então, sendo humano, mas não desejando ser humano, num lapso de vontade – que, cá para nós, uma barata não poderia ter tido – pensou que para além de não ser humano, seria de fato uma virtude não voltar a ser barata.
Mas, infelizmente, caro leitor, não iremos adiante nesse papo. O final dessa história, Denis ainda não sabe. Ele continua nessa encruzilhada. Continua tentando o amor desapegado, as viagens com os pés no asfalto e, prioritariamente, um curso de teatro. Ele ainda estranha e acha graça quando o diretor fala: “escolha um animal que tenha a ver com sua personagem”

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entre grandes e pequenas mortes, a vida, discreta, continua.